Não é possível ter tudo. Não?
Pra ter sucesso você precisa dormir, comer, estudar um pouco pelo menos, ter confiança suficiente pra achar que sabe muito bem o que está fazendo (mesmo que no fundo não saiba), ter tempo, ter fé em alguma coisa, ter amigos, não sustentar muitos vícios, ser consciente de que vai cair sucessivas vezes, gostar de correr riscos, não estar alimentando um relacionamento condenado a fracassar e, acima de tudo, precisar do dinheiro. Mas, e o restante?
Empurrar tudo pra debaixo do tapete: as raivas, as mágoas, as carências, os fantasmas, os desejos de uma outra vida, nova, limpa - uma outra vida em que não seria necessário sair correndo atrás de realização, de conquistas espetaculares pra sentir a inveja e o aplauso dos amigos. Uma outra existência livre de competição, de metas, de mentiras; afinal, que tipo de sacrifícios e auto-enganos justificam a busca sem freios pelo reconhecimento de um talento que se tem?
Lembro de uma cena do filme O Diabo Veste Prada em que um coadjuvante se dirige à protagonista dizendo algo como 'quando sua vida pessoal explodir, avise: está na hora de você ser promovida'. Parece cruel? E é. Mas atire a primeira pedra quem nunca achou impossível conciliar emoção e razão, que nunca se pegou pensando em como fazer essas duas caminharem sem se esbofetear ao longo do caminho. No filme, que provavelmente boa parte da meia-dúzia de pessoas que lêem este blog já viu, a mocinha interpretada por Anne Hathaway atinge o clímax profissional e prova que é capaz de tudo o que sempre quis, para depois... Para depois largar tudo e partir pra outra, recobrando seu lado humano, falho e limitado. É assim que é, então? Ficamos numa roda-viva até a fogueira da vaidade consumir-se por si mesma, até enxergarmos que a vida é mais que um novo talão de cheques ou uma nova grife no armário? Ou um carro, uma viagem, qualquer uma dessas felicidades perecíveis a que nos dedicamos afincadamente, dia após dia.
Não vou dizer que não caí nessa; mas não caí só nessa. Converso aqui e ali com pessoas interessantes, inteligentes, e que no entanto fazem questão de não sair do país das maravilhas do comodismo, achando que está tudo bem. Inventam novos sonhos pra acreditar, mas internamente pouco se mexem; continuam trabalhando, tendo amigos, sendo conscientes, evitando o passado, fugindo dos erros, com preguiça do futuro, e tudo isso muito tranqüilamente até que resolvam ficar sozinhos; porque, por alguma triste poética, certas sensações só se revelam mesmo na solidão, e o vazio é uma delas. E depois? Não sei o que há depois, desconfio que não haja nada; ontem já passou, amanhã é tarde demais pra mudar, os tempos são outros, muitas escolhas feitas, já era - não é assim que funciona? A eterna procrastinação empalidecendo vidas que poderiam ser brilhantes.
Tenho fé em alguma coisa, algum tempo, amigos, gosto de riscos, poucas coisas me assustam, tenho consciência dos tombos e, ainda assim, ou talvez por causa disso, também caí nessa. Nesse ladinho superficial de ter um bom nome, uma boa reputação, um certo dinheiro e ir esquecendo que também é preciso sentir, ser doce, ter tranqüilidade emocional, cultivar afetos mais fortes, sem medo que olhem de perto os equívocos que a gente constrói quando quer parecer mais estável do que realmente é. Ou seja, pista errada; onde é o retorno mesmo?
Porque, se é impossível ter tudo, pelo menos eu quero o que mais se aproxima disso.
postado por Cintia M, promovida essa semana, num dia muuito cabeça, estreando no blog